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Implantação, estrutura, planta, distribuição de águas, revestimentos e sistemas de manutenção dos edifícios precisam ser projetados para atender a todas as necessidades de um usuário inteligente.

Até 1990, a associação entre “inteligência” predial e nível de automação de um edifício era quase inevitável. Essa ausência de uma definição mais adequada estimulou a realização de uma pesquisa sobre edifícios inteligentes na América Latina, organizada pelo braço brasileiro do Council of Tall Buildings and Urban Habitat. Além das conclusões sobre os prédios avaliados, o relatório final, divulgado em outubro de 1999, abriu caminhos para uma conceituação nova e mais abrangente.

Durante a pesquisa, já começou a haver diferenciação entre edifícios de alta tecnologia e os chamados inteligentes. Os primeiros são aqueles equipados com todos os recursos eletrônicos para gerenciamento e controle de sistemas, visando basicamente a redução dos custos operacionais, a segurança patrimonial e prevenção de incêndios.

Já o edifício inteligente procura atender plenamente às necessidades dos usuários e baseia-se na modulação, na flexibilidade de planta e de instalações – para que o prédio seja adaptável ao perfil de usuário e à inovação tecnológica -, na inserção no contexto urbano, nas condições climáticas, em projetos técnicos que supram a necessidade de conforto ambiental e na especificação de sistemas construtivos e materiais que contribuam para o alto desempenho da edificação.

A tecnologia não é a senhora absoluta de um edifício inteligente. “Não conheço no Brasil nenhum edifício com sistemas totalmente eletrônicos; mas temos prédios em que existe a infra-estrutura para instalá-los”, define o arquiteto Marc Rubin. “A mão-de-obra brasileira é barata em relação ao exterior e por isso seu custo ainda é mais acessível que a automação”, lembra o arquiteto Roberto Aflalo.

O limitado patamar tecnológico das edificações no Brasil também pode ser justificado pela própria altura dos nossos edifícios, muito mais baixos que os prédios norte-americanos que tomamos por modelo. A razão é simples: quanto maior a construção, mais aumenta a necessidade de gerenciamento eletrônico. Embora edifícios menores não dispensem totalmente a automação, esses investimentos nem sempre são considerados obrigatórios. “O cliente quer um prédio inteligente, mas não quer colocar nada mais complexo, que faça o custo ultrapassar os 800 reais/m2”, conclui Rubin.

Segundo o arquiteto Edison Musa, o mínimo de automação que um edifício “inteligente” requer são os sistemas de controle das redes elétrica e hidráulica, sistemas de segurança patrimonial e de prevenção e combate a incêndios, sistema de telecomunicações e gerenciamento total dos elevadores e do sistema de ar condicionado, porque “permitem reduzir custos de condomínio”, ele avalia. Na prática, a afirmação aplica-se mais à realidade das grandes corporações do que à dos projetos feitos para o mercado, geralmente viabilizados com menores desembolsos.

Na visão do arquiteto Henrique Cambiaghi, isso é um indicativo de que as preocupações com o usuário final não estão entre as prioridades do investidor. “Em qualquer lugar do mundo, um projeto leva de 12 a 18 meses para ficar pronto e a obra é executada rapidamente. No Brasil, ao contrário, o projeto é desenvolvido a toque de caixa e a obra é morosa. Isso porque o cliente não entende que o projeto é uma simulação que precisa ser testada.

Para Cambiaghi, um edifício inteligente começa com um projeto inteligente, que por sua vez nasce de uma contratação inteligente. “Não existe uma fórmula pronta. Cada edifício é um trabalho de equipe que deve ser feito a três mãos pelo pessoal de projetos, de construção e de pós-obra”, diz.

Musa concorda e acrescenta: “Sou do tempo em que se reinventava a roda a cada projeto e agora a matriz está no computador, superando as fases de anteprojeto, detalhamento e projeto executivo. Mas hoje temos a vantagem da grande oferta de soluções, da construção como uma linha de montagem”.

A construção da flexibilidade começa pela escolha do sistema construtivo, que também pode implicar redução de prazos e economia. As novas tecnologias do concreto e as estruturas metálicas são as opções para se dispor os pilares no perímetro da construção, criando assim os grandes vãos que proporcionam o melhor aproveitamento da área de laje – que deve ser ampla. “A modulação evita desperdícios e dá mais flexibilidade ao conjunto”, lembra o arquiteto Gianfranco Vannucchi.

Shafts, piso elevado e forro para a passagem das instalações, sempre com reservas de espaço para novos sistemas, facilitam as mudanças de uso e o upgrade das edificações, sendo por isso hoje considerados itens obrigatórios. No futuro talvez não seja assim. O arquiteto Carlos Bratke prevê a extinção do piso elevado tão logo a informática torne mais acessíveis os produtos por infravermelho, que dispensam os fios. “Quando isso acontecer, bastará uma tomada por equipamento e as canaletas elétricas suprirão a necessidade”, prevê.

Uma fachada planejada é um dos pontos mais importantes da “inteligência” predial. De nada adianta dispor do mais avançado sistema de ar condicionado central, se a construção absorve grandes quantidades de calor, exigindo demais do sistema de refrigeração e aumentando o consumo de energia elétrica – o que contraria o objetivo básico da redução de custos.

São muitas as possibilidades das fachadas de vidro, um símbolo de status e riqueza adotado pela maior parte dos edifícios de escritórios no mundo – com a vantagem de propiciar vista para o exterior, um importante fator psicológico para seus usuários. Da mesma forma, são muitas as críticas a sua utilização. Por um lado, há os que vêem o material mais como uma solução própria para evitar a perda do calor da calefação, condição essencial nos países frios que lançaram a moda.

Por outro, há os que criticam a conseqüente necessidade do ar-condicionado, um dos itens mais polêmicos de um edifício devido aos problemas causados por falta de renovação do ar e pela má manutenção, propiciando a disseminação de doenças entre os usuários.

Mas existem alternativas que permitem sua utilização sem que isso acarrete maior absorção de calor, afirmam os arquitetos Roberto Aflalo e Gian Carlo Gasperini. “Quanto maior a diferença térmica entre interior e exterior, maiores serão os investimentos. Por isso, a “inteligência” está em fazer uma construção que interaja mais com a natureza, gastando menos para combatê-la.

Musa também defende o uso das fachadas de vidro sem que isso comprometa a eficiência. “Há 14 combinações possíveis, do vidro simples ao triplo, com diferentes fatores de absorção de luz e calor, com proteção interna ou externa”, explica. Seja qual for o sistema escolhido, é importante prever a limpeza externa e a manutenção dos grandes planos da fachada. “Brises, peitoris e recortes dificultam a automação da limpeza e por isso sua utilização deve ser muito bem planejada”, lembra Aflalo. Segundo o arquiteto, a especificação do vidro duplo tem uma função original de isolamento termoacústico, mas ele é mais utilizado no Brasil com a finalidade de proteção acústica.

Os arquitetos Gianfranco Vannucchi e Bruno Padovano concordam: “A poluição atmosférica é um problema sério e a poluição sonora faz com que seja impossível falar ao telefone com as janelas abertas”, afirma Vannucchi. “Por isso, nossos prédios são ilhas lacradas. Mas eles não podem continuar assim, pois as cidades esperam integração. Todos nós devemos batalhar pelas cidades e não apenas usar recursos tecnológicos para fugir de seus problemas”, completa Padovano.

Com isso, os arquitetos tocam em outro ponto chave do projeto, a inserção na malha urbana. As possibilidades são duas, destaca Padovano: um terreno encravado em meio a outros prédios, com todos os inconvenientes da falta de escolha, incluindo o alto tráfego e a poluição, entre outros fatores; ou um lote suficientemente amplo, com implantação que permita uma orientação bem planejada, com facilidade de acesso, boa oferta de serviços no arredores, vagas de estacionamento ou vista para o exterior.

É claro que a segunda opção é a mais adequada, mas nem sempre essa decisão cabe ao arquiteto ou é possível numa cidade como São Paulo.

Com a abertura econômica da década de 90, a vinda de empresas estrangeiras para o país criou demanda significativa de edifícios “inteligentes” para escritórios. A grande pergunta é: até quando elas continuarão interessadas no Brasil, investindo e movimentando esse mercado? A resposta depende de determinados rumos econômicos.

No entanto, os arquitetos vislumbram outros segmentos que podem ocupar o lugar dos escritórios. “Ainda é ambicioso querer estender os conceitos de “inteligência” predial para o mercado de hospitais, escolas, residências ou edifícios de serviços, mas o momento da expansão certamente chegará”, conclui Musa.

Fonte: Arco Web

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